Quinta-Feira, 17 de Outubro de 2019
 

A Guerra dos Canudos

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, Docente da Uninove, autor de “Ética Ambiental” e Presidente da Academia Paulista de Letras -2019/2020

A guerra de Canudos foi um episódio emblemático na história da República brasileira, eternizada por Euclides da Cunha em “Os Sertões” e também universalizada por Mário Vargas Llosa, em seu livro “A guerra do fim do mundo”.

Mas não é dela, constantemente revisitada, que vamos falar. É do movimento que, no mundo inteiro, se faz em desfavor do uso do aparentemente inofensivo canudinho, aquele tubinho de plástico de várias cores, tão utilizado principalmente pelas crianças, para consumo de líquidos.

Usamos o canudinho por alguns minutos. Mas leva séculos para ele se decompor. Aparentemente pequena a sua dimensão. Mas é um vilão da natureza. Dentre os plásticos de uso único, ou seja, sua utilidade é momentânea, mas leva séculos para se decompor, o canudo é considerado o item mais fácil de ser substituído ou dispensado.

Ganhei de uma amiga, no Natal, um canudinho de metal. Há também os de vidro. Mas há também versões biodegradáveis, como os de bambu, os mais ecológicos. Até comestíveis: feitos de abobrinha ou de macarrão.

A “maravilha” do plástico mostra hoje sua outra cara. O mundo já produziu quase nove milhões de toneladas de plástico. A reciclagem não alcançou 12%. 9% foram incinerados e os outros 79% contaminam o ambiente. Principalmente o mar.

O material plástico é responsável por 92% dos resíduos oceânicos e ameaça quase setecentas espécies marinhas. Ainda não existe fórmula para que os micro-organismos metabolizem os compostos plásticos. Enquanto se procura a solução, o mundo vai se afogar no material plástico.

O mundo civilizado leva com seriedade maior as advertências dos cientistas. O Parlamento Europeu aprovou uma lei para banir até 2021 não só os canudos, mas também cotonetes e talheres feitos de plástico, entre outros itens.

A guerra contra os canudos é desigual. O setor de produção do plástico é muito forte. Oferecerá resistência. O litoral norte de São Paulo é o espaço em que leis proibitivas de uso do canudinho foram aprovadas. Algumas aguardam a vacatio legis, outras a sanção do Prefeito.

Resta saber se o Judiciário não vai considerar inconstitucionais esses diplomas, mais atento a formalismos e à retórica da livre iniciativa, do que interessado em preservar o ambiente e a saúde de todos os vivos, dentre eles, os humanos.

Tudo é uma questão de consciência e de educação. Como a primeira está em falta e a segunda agonizando, os prenúncios não são os melhores. A humanidade pagará seu preço pela insensibilidade em relação à natureza. Só que os inocentes é que vão pagar pela insensatez de nossa geração.

Nota da Redação: Os artigos publicados neste espaço “Opinião” são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “Jornal Folha Regional de Andradina” e nem de sua direção.