Domingo, 22 de Setembro de 2019
 

Artigo: Além do Rio da Prata

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados

Se mover-nos a curiosidade pelo homem em sua determinação geopolítica, estaremos aptos a nos cotejar um pouco com os argentinos. Enquanto malhávamos no centro do trópico, nas pradarias intermináveis da cana, do café, das minerações para os brilhos de Lisboa e do velho mundo, despejados nas praias os rastros de sangue, suor e agonia, deixados pelos navios negreiros, o extremo sul da América era a busca da civilização transliterada.

Depois de heroicas pelejas no século XIX que envolveram memoráveis cavaleiros sem medo, na guerra do Prata, em que pretendiam reinar soberanos Uribe e Rosas, este bem aquinhoado com o epíteto de "aranha de Palermo", das quais não ficamos alheios, "los irmanos" de Buenos Aires sentiram-se os franceses e anglófilos das longínquas e geladas terras boreais.

O passageiro e admirável vendaval de cultura europeia que lembra os ricos Alvear, La Ricoleta, a urbanização verde e cativante e as aventuras intelectuais de Borges, Victória Ocampo, Ernesto Sábato, Júlio Cortázar, Liliana Budoc, Adolph Bioy Casares, Ricardo Piglia, Macedonio Fernández etc, deram a impressão de um paradisíaco futuro no cone sul. Foram-se, entretanto, os despojos dos judeus, eles próprios e os europeus refugiados; as guerras deixaram de abastecer de material e de homens os espertos da Casa Rosada.

A nós, a plebe não titubeou em chamar de "macaquitos", seres humanos desenraizados de suas moradas africanas, a ferro e fogo, para servir aos senhores do centro da terra. Ao não nos salificarmos como nação una e sólida, lançamos água benta sobre essa aleivosia vinda do sul, aperfeiçoada com nossos próprios preconceitos e exclusões.

Desprovidos de riquezas fáceis, resta ao homem o trabalho. Sua organização corporativa levou o nome de sindicatos, talvez a mais importante e aviltada das instituições.

Sujeita a supostos líderes que engordaram e se dessangraram espiritualmente. Somente entre os homens que trazem gen do apodrecimento é bom que se diga. Os primeiros interlocutores de Obama em 2008, esclareça-se, foram sindicatos. Mas as batatas podres é que chamam atenção para os sacos. Tal como mujiques incultos foram sofregamente transformados em "sovietes". E deu no que deu o socialismo ideal.

O populismo é o mais triste e cinzento mundo da putrefação sindical. Perón, Isabelita, os Kirchner... Esperemos que os atuais tenham revisto valores fundamentais. Há boas razões para isso, em que pese a vice. Se ainda há esperança no sindicalismo mundial, as bactérias de seu âmago, preliminarmente, devem ser dizimadas. Conhecedores de heróis e honestos sindicalistas brasileiros, podemos alimentar essa esperança.

O caminho se abre à uma autêntica democracia social, na qual se irmanam, conscientes de seus direitos mas também de suas restrições, homens que não atacam a economia de mercado e necessariamente a alinham às liberdades políticas e à justiça social - em citação superficial e injusta por insuficiente, Mário Vargas Lhosa, na literatura, John Rawls e juristas do trabalho - única estrada que vislumbramos.

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